A partir de ‘Quererla es crearla’ QUEREMOS visibilizar uma dolorosa realidade: a solidão que vive uma parte dos estudantes na escola. Este vídeo, realizado numa colaboração desinteressada pelo artista Leo Osa, pretende promover a reflexão e a ação coletiva para tornar as escolas mais habitáveis para todos e todas.Versão com audiodescrição
Audiodescrição [AD].Vista aérea de um pátio de recreio. Uma professora propõe aos seus estudantes fazerem equipas para jogar futebol. Começam a girar umas engrenagens. Um grupo de estudantes espera impaciente para ser escolhido. O grupo vai diminuindo. Só resta uma rapariga e um rapaz numa cadeira de rodas. Olham-se tristes e pensativos. Um dos capitães aponta para eles. A rapariga é escolhida e afasta-se com um rosto triste. As engrenagens param. O rapaz fica sozinho. Aparece numa sala de aula junto a uma professora. Agora na paragem do autocarro, junto a outros que o ignoram. O rapaz vê como outras crianças brincam ao futebol. A professora olha de longe para a cena. O rapaz baixa a cabeça triste. Primeiro plano da professora pensativa. Voltam a girar as engrenagens. Primeiro plano da professora. Termina a animação com a pergunta:«O que fazemos perante a solidão dos estudantes?». Educação Inclusiva. Quererla es crearla. Animação realizada por Leo Osa Fernández. Arquivos de somsalamisound.com. Licenças Creative Commons.

Experiências e reflexões compartilhadas

Não se trata apenas dos pátios; nem se restringe a quem tem mobilidade reduzida. O vídeo é um ponto de partida para uma reflexão profunda: há estudantes que, ao longo da jornada letiva, se relacionam quase exclusivamente com o corpo docente, afastados do seu grupo de referência, mesmo partilhando espaço. Durante meses recebemos um bom número de iniciativas e boas práticas que procuram dar resposta a estas situações que colocam uma parte do alunado em situação de vulnerabilidade e isolamento. Apresentamos aqui uma breve seleção delas pelo seu potencial para nos fazer pensar, e agradecemos enormemente todos os esforços realizados dos quais diferentes escolas de toda a Espanha nos deram conhecimento.

E o seu centro, o claustro, as famílias, você… o que fazem ou vão fazer para CRIAR espaços de convivência nos quais todas as meninas e todos os meninos, sem exceção, façam parte de um todo? O trabalho de cada comunidade para evitar essa dor pode ser um estupendo início de processos inclusivos que se estendam a outros temas da escola.

O nosso objetivo continua a ser a criação de propostas para a reflexão e o debate que propiciem a transformação das nossas escolas em espaços democráticos e realmente inclusivos onde as necessidades de todo o alunado sejam tidas em conta e abordadas a partir de um prisma alinhado com o respeito aos direitos humanos. Para isso é imprescindível contar com pessoas como você para demonstrar mais uma vez que Quererla es Crearla.

Algumas experiências inspiradoras

Fazer vínculos com cócegas (CEIP Nº1 de Tui)

Olá, sou Miguel. Sou professor de escola pública na Galiza, concretamente em Tui, no CEIP número 1, e falo convosco a propósito da pergunta que nos lança Quererla es crearla sobre a solidão que sofrem alunos nas nossas escolas.

A propósito disto, conto-vos uma história pessoal com um aluno, neste caso com dificuldades para a participação dentro da sala de aula regular, para a relação com os seus pares em muitos momentos, em que o seu corpo docente tomou a decisão, precisamente, de abordar estas dificuldades e gerar espaços para o vínculo. Espaços para a coesão com os seus colegas dentro da sala de aula regular.

Para isso, analisamos os seus gostos e descobrimos que ele adora cócegas, pelo que gerámos e estruturámos dentro do horário letivo um par de ocasiões durante a jornada em que este aluno escolhe, através de uma série de apoios visuais, um dos seus colegas para ir a um espaço confortável na sala de aula com uma estrela. Um espaço dedicado ao diálogo e à leitura em que desfrutam de uma atividade partilhada, tão divertida e protagonizada pela risada como é fazer cócegas. Esta atividade foi-se ampliando e observou-se como este vínculo se foi ampliando com todos os colegas de turma, vencendo algumas das barreiras que se tinham gerado, atitudinais. Neste caso, ligadas também às relações sociais dentro do contexto da escola.

Esta e outras reflexões que realizamos com outros colegas dão-nos conta da importância que tem a escola para gerar espaços para o vínculo; espaços para o desenvolvimento afetivo e emocional. E como os professores e desde a escola pública e regular devemos dedicar tempo e recursos para isso, principalmente, porque é algo que beneficia a todos os estudantes e é algo que os prepara para uma vida diversa em sociedade. Uma vida em que todos e todas eles deverão aprender que as diferenças são o que existe entre as pessoas. Que todas as pessoas somos diferentes.

Naquela atividade, todas as suas diferenças se esbatíam entre risos e gargalhadas. Estabelecia-se um momento horizontal natural em que duas pessoas, em que duas crianças, desfrutavam de uma atividade juntas, independentemente de qualquer diferença. Que em toda esta diferença existe uma magia e uma oportunidade de aprender conjuntamente, uma oportunidade de crescer e de valorizar as pessoas na sua diversidade.

Daqui, agradecer a Quererla es crearla por estas iniciativas que nos continuam a alimentar e a impulsionar para a mudança. Uma saudação muito forte e até à próxima vez que nos virmos.

Creciendo en compañía (CEIP El Gracia)

Laura Maldonado - (L.M.):—Olá, meu nome é Laura Maldonado.

Noelia Sedano - (N.S.):—Olá, eu sou Noelia Sedano e somos professoras do Gracia.

(L.M.):—Falamos em representação de todos os nossos colegas do colégio e, bem, queríamos explicar o porquê deste vídeo.

Desde a plataforma Quererla es crearla, de educação inclusiva, da Universidade de Málaga, nos pedem para fazer um vídeo para explicar o que entendemos por solidão e como a trabalhamos na escola.

(N.S.):—E como fazemos, pois como costumamos trabalhar. Levamo-la à Assembleia de Professoras e Professores, o nosso espaço, onde partilhamos, chegamos a consensos, dialogamos. E uma vez que decidimos que era de facto uma ideia interessante, pois, bem, pois, todos nos pusemos mãos à obra.

Recolhendo a palavra de todos os que formamos esta escola, pois nada, gravámos o vídeo, que a seguir poderão ver, que espero que vos ajude, para que cada vez sejamos melhores pessoas em relação a, bem, a ter um olhar sensível sobre o que é a solidão e como trabalhar e enfrentá-la.

Obrigado.

(L.M.):— Muito obrigado.

Audiodescrição [AD]: Num quadro de giz, lê-se «A solidão, Dicionário». À medida que define o termo, sucedem-se imagens de estudantes sozinhos nos pátios escolares.

Voz off (v.o.):— A Real Academia Española define a solidão da seguinte forma. Falta voluntária ou involuntária de companhia. Lugar deserto, terra não habitada. Pesar e melancolia que se sentem pela ausência, morte ou perda de alguém ou de algo.

Como as crianças e os meninos sentem a solidão?

Audiodescrição [AD]:Enquanto os estudantes explicam sua percepção da solidão, são mostrados diferentes desenhos nos quais uma figura é sempre rejeitada por outra figura ou grupo.

Estudante 1:—Quando me deixam de lado.

Estudante 2:—Alguém não quer brincar comigo.

Estudante 3:— O primeiro dia de escola.

Estudante 4:— No pátio sinto-me muito sozinha.

Audiodescrição [AD]: Num quadro negro, lê-se «Assembleia da solidão». Um grupo de jovens e uma docente, sentados no chão de uma sala de aula, dialogam sobre a solidão. A seguir, noutro quadro negro, aparece o título «O que opinam as famílias e o pessoal do centro».

Celia:— Olá, o meu nome é Celia, tenho uma filha de quatro anos que começou este último curso no Colégio Nossa Senhora de Gracia. Escolhemos o colégio pela idiossincrasia especial deste colégio. Quanto a que os pais podíamos participar, entrar com ela nas aulas, as salas eram abertas, podiam eles partilhar com crianças mais velhas e mais pequeninas.

Mãe 1:— … Porque neste caso era um professor de educação infantil. Em vez de tratar o tema sozinhas, cada uma com a sua turma, uniram-se para trabalhar juntas com toda a turma e isso, para nós que estávamos em casa, fez-nos sentir parte.

Francesca, mãe:— Sou a Francesca, italiana, e viemos um ano viver para cá com a minha família. Como os meus filhos não falavam nada de espanhol, escolhi uma escola que pudesse ser muito acolhedora para eles porque, claro, era um tema também, a solidão, também linguística, não é? Ou seja, ao não poder comunicar, o risco de estar sozinho é muito alto, a verdade.

Pepi, mãe:— Olá, sou a Pepi, tive cinco filhos meus. Estou muito agradecida à escola durante o confinamento, muito. Com nenhum dos cinco que tive, estou muito contente, muito contente, por todos os aspetos: a união que há na escola, a maneira como os professores se comportam com as crianças, a paciência que têm com elas e, a verdade, não tenho nenhuma queixa, e muito bem.

Docente:— Não vejo nenhuma menina com solidão nessa escola. Nunca verás uma criança, menino ou menina, num canto sozinha, nem a perguntar-se ou a olhar com um olhar perdido para um lado e para o outro a ver com quem se dá bem. É tudo uma equipa, seja qual for o seu estatuto, a cor que tenham e o corte de cabelo que tenham, nada em absoluto. Pela minha parte, como combato a solidão, para que nenhuma criança se sinta sozinha. Se vamos a andar e há uma criança sozinha, passo-lhe o braço pelo ombro e pergunto o que se passa. Ela responde. São muito fáceis as respostas e as perguntas para eles. Nós é que as tornamos um bocadinho mais complicadas.

Annie:— Olá, sou a Annie. Sou a zeladora da escola, mas agora estou de licença. Mas venho dar uma mão e apoiar no que puder.

E faço isto porque me sinto bem. Aqui na escola sinto-me acolhida, sinto que não sou apenas a zeladora. Mas desde o início. E sinto que sou da família. Que sou mais uma, mas não apenas uma zeladora. Sou mais uma professora.

Audiodescrição [AD]: Numa lousa de giz, lê-se «O que fazemos na escola para enfrentar a solidão».

(V.O.):— O que fazemos na escola para enfrentar a solidão? Levamos a cabo a seguinte estratégia de prevenção. Acompanhamos as crianças. Misturamo-nos para trabalhar em oficinas interníveis, salas de aula abertas, portas oferecidas, audições.

Incluímos as famílias. Ouvimo-nos. A nossa prioridade são as emoções. Fazemos trabalho personalizado. Também trabalhamos em pares e em pequenos grupos. Promovemos a linguagem positiva. A diversidade enriquece-nos.

E a Assembleia é onde todas as vozes são consideradas e onde o olhar atento ao que acontece ao nosso redor se desenvolve. Porque somos assim, crescemos em companhia. Subscreva!

Audiodescrição [AD]: Sucessão de imagens de assembleias escolares.

Ideias simples que trazem luz (Paula Verde)

Olá, meu nome é Paula e eu queria fazer um pequeno vídeo de uma maneira muito curta para contar uma experiência que meu filho viveu no centro e dar, um pouco, resposta a essa pergunta que nos é colocada: Quererla es crearla .

Uma das coisas mais bonitas que meu filho viveu no centro foi a convivência com seus iguais e grande parte dessa convivência se gera nos pátios. Héctor tem autismo, tem um autismo não verbal e Héctor tem umas determinadas características que, muitas vezes, fazem com que os jogos e as condutas nos pátios lhe resultem bastante difíceis.

Por quê? Porque ele funciona por interesses, como a maioria das crianças, mas de uma maneira obsessiva. Durante um tempo muito longo, Héctor se escapava ou tinha se obcecado com o pátio da educação infantil e, então, estava entrando num ciclo que para os docentes que estavam no pátio resultava difícil de controlar.

A partir de começar a desenhar e a pensar em como manejar essa situação, surgiram oportunidades simples que acabaram sendo tão atrativas para ele como para o resto de seus colegas. E começou, pouco a pouco, com uma simples bola de basquete onde o incentivavam a fazer cesta. Ele não era muito hábil e, quando fazia cesta, se alegrava muitíssimo, e com ele começaram a se alegrar os colegas. Então, depois, esses colegas se sentiam motivados a participar com ele.

Outro dia, era a corda; uns puxavam por um lado, outros puxavam pelo outro. Ou pular corda e animá-lo a ele a que pulasse. Então, bom, havia cenas de pátio, e continua havendo, maravilhosas, que muitas vezes me gravavam e me faziam chegar. E isso a mim me dava, pois, uma informação, uma tranquilidade e uma constância de que, efetivamente, os pátios eram uma forma mais de aprender juntos.

Quando chegou a pandemia, as coisas se dificultaram muitíssimo pelo tema de que estávamos em casa e eu era o que mais sentia falta. Sentia falta disso porque a nível curricular, embora para mim seja importante, não é o mais importante, e eu sabia que os vínculos que se geravam nesses pátios, pois de alguma maneira iam se ver afetados.

Surgiu a alternativa dos pátios pandêmicos. Os pátios pandêmicos não deixaram de ser iniciativas que levou a tutora através de atividades grupais, onde cada um preparava uma parte, pois a lo mejor, um pedaço de um conto. E, depois, nos reuníamos através de uma videoconferência e cada um atuava ou ia, pois, com alguma peça de roupa relacionada com o conto e todos faziam uma atividade quase sempre centrada nos interesses de Héctor, para que estivesse motivado e para engajá-lo.

Agora, depois do que foi o momento de confinamento, o regresso ao centro, os pátios estão ainda mais limitados. Eles têm de brincar dentro de um espaço determinado, do qual não podem sair.

E também representou um problema, porque ele estava habituado a mover-se um pouco por onde queria. Então, começaram a trabalhar com apoio visual e começaram a desenhar o que foi para mim um acerto total. Aproveitando os interesses do Héctor por contos clássicos e pela representação de cenas, começaram a desenhar através de desenhos no chão com giz, pois, silhuetas, cenários de casa com diferentes divisões, meios de transporte, autocarros, simulando viagens. E, então, digamos, estruturavam um pouco o tempo de recreio com uma história em que ele começava a ser protagonista e à qual começaram a somar-se os seus colegas de uma maneira completamente natural.

Naquela viagem imaginária de autocarro, subiam os seus colegas e sobem. Naquelas cenas de casa, ele dizia quem se levantava a uma hora, quem comia outra, quem eram os que saíam pela porta, quem passeava o cão. Outras vezes era a representação dos ursinhos e cachinhos dourados, ou os três porquinhos e o lobo, e sempre, por supuesto, com iniciativa e apoio do auxiliar técnico educativo, que é, digamos, o forte em toda esta iniciativa.

Bem, por que conto isto? Porque eu acho que às vezes há ideias simples que trazem luz e que simplesmente ao ouvi-las já nos inspiram. Pois nada, com o fim de inspirar, é com o que conta esta experiência, porque a verdade é que para nós é chave. Chave no dia a dia da escola.